Ensino Híbrido para José Moran: “A escola tem que ser mais ágil”

As potencialidades do modelo híbrido, que favorece a personalização do ensino, o protagonismo do aluno e a aprendizagem significativa, foram o tema do 6º encontro online do Circuito Geekie, que aconteceu em 2 de junho

A pandemia e o ensino remoto impuseram uma série de desafios para a educação, mas também a chance de as escolas reinventarem as formas de ensinar e aprender. A  retomada das aulas presenciais é um grande momento para colocar em prática os aprendizados do período, segundo o professor José Moran, doutor em comunicação, designer de ecossistemas inovadores na educação e uma das maiores referências no Brasil em ensino híbrido. Ele foi o palestrante do sexto de sete encontros online do Circuito Geekie, que aconteceu em 2 junho e abordou o tema “Ensino Híbrido em 2020 e 2021: quais oportunidades a pandemia trouxe para as escolas?”.

Moran observou que a pandemia nos deu a dimensão de como podemos aprender de formas tão diferentes, experimentar, trocar informações e nos adaptarmos a contextos tão diversos. Primeiro, ao usar novas ferramentas e aplicativos, ainda que muitos(as) não tivessem acesso. Depois, ao tentar chegar a todos os(as) alunos(as) em situações desiguais, manter o currículo vivo em uma plataforma que era novidade para a grande maioria dos(as) usuários(as) e ajustar o ensino às diferentes circunstâncias. 

“As dificuldades foram grandes, mas agora temos um novo desafio pela frente: aos poucos estamos voltando para a escola. Nós vamos fazer o mesmo que fazíamos antes de 2020? Não aprendemos nada? Nessa retomada, o que vamos manter do encontro presencial e de todas as possibilidades que vimos no ensino remoto?”, questionou. 

De acordo com ele, essas experiências apontam alguns caminhos, que mostram uma sala de aula conectada, que faz um híbrido entre professores(as), alunos(as) e tecnologias. 

Aprendizagem individual, em grupo e mentoria devem fazer parte dos currículos

Um primeiro aspecto a ser levado em conta, segundo Moran, é os currículos considerarem períodos de estudo individuais, momentos em grupo, na sala de aula, e também horários de tutoria e mentoria para os(as) estudantes.

Ele contou que, desde 2014, vem acompanhando algumas escolas públicas na Califórnia e em Washington, nos Estados Unidos, que usavam modelos híbridos mesmo antes da pandemia. Nesses sistemas, os(as) alunos(as) têm algumas horas de estudo individual, em plataformas adaptativas, em que fazem alguns roteiros com curadoria dos(as) professores(as), dentro do seu ritmo e tempo. 

Posteriormente, eles(as) vão para algum projeto em grupo, em que são orientados(as) por dois(duas) professores(as) de áreas diferentes, como línguas e ciências. Na sequência, eles(as) voltam para o estudo individual e depois seguem para outra atividade em grupo. 

“Os(as) estudantes vão alternando muito o pessoal e o coletivo e, uma vez por semana, eles(as) têm um encontro com o(a) mentor(a), aquele(a) professor(a) que orienta o currículo e a aprendizagem do(a) aluno(a), e o que ele(a) quer fazer ao longo da vida. É um currículo de alguma forma personalizado e adaptado para aquela pessoa.”

De acordo com Moran, esse modelo faria muito sentido na retomada das aulas e permitiria trabalhar três eixos fundamentais: 

  • levar em conta o que interessa e motiva o(a) estudante e possibilitar que ele(a) aprenda dentro do seu tempo e do seu ritmo;
  • o(a) aluno(a) aprender a trabalhar em grupo em projetos que tragam soluções para problemas reais, combinando conteúdos e atividades práticas e reflexivas;
  • o(a) estudante ter a possibilidade de uma orientação um pouco mais personalizada por meio de um mentor.

Como colocar em prática esse modelo de ensino híbrido? 

Quanto às formas de colocar em prática esse modelo, ele disse que há várias possibilidades. Nas escolas de tempo integral, por exemplo, pode-se fazer o estudo individual na própria instituição e alternar esses períodos com atividades em grupo. 

Nas escolas com menos horas de aulas, o(a) aluno(a) poderia aproveitar o tempo que ele está em casa para se preparar para a sala de aula. Nessa metodologia, conhecida como sala de aula invertida, o(a) professor(a) indica materiais, como textos e vídeos, e os(as) estudantes realizam pesquisas prévias, em que podem ir registrando os resultados em uma plataforma digital. Os(as) professores(as) então visualizam o que os alunos e as alunas estão fazendo e, a partir disso, desenham as propostas para a sala de aula. 

Ele ressaltou, no entanto, que a sala de aula invertida pressupõe ter estratégias de acompanhamento tanto dos(as) alunos(as) que fizeram as atividades prévias como daqueles que não se prepararam. Estes devem se organizar e realizar os estudos para, posteriormente, serem incorporados ao planejamento dos outros estudantes. 

“É fundamental valorizar quem se preparou e mostrar que não se preparar tem consequências –não como forma de punição, mas de reconhecimento que a preparação é essencial para participar do projeto.”

Esse redesenho para integrar o tempo de cada um, o tempo do grupo e o tempo da mentoria é rico em possibilidades e depende de muita experimentação, segundo Moran. É preciso ter propostas, por exemplo, para atender os(as) alunos(as) que, por algum motivo, não podem estar presentes fisicamente alguns dias na sala de aula. Nesse sentido, é válido pensar em modelos síncronos, com alguns(algumas) estudantes na sala de aula e a outra parte em casa, e na gravação de aulas assíncronas. “Os modelos a partir de agora têm que ser muito mais baseados na experimentação e na participação dos alunos. Eles precisam ser ouvidos, como o foram ao longo de 2020, em que houve esse intercâmbio e comunicação com as famílias e os estudantes.”

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Participação da comunidade e escola viva: por que continuar com reuniões presenciais frente às novas experiências?

Outro ponto a ser repensado é a questão da escola aberta à comunidade. Como a escola estava em casa, e os pais, as mães e os(as) responsáveis estavam próximas, houve uma parceria maior entre gestores(as), docentes, alunos(as) e famílias. Essa junção, que ocorreu por necessidade, criou vínculos que, de alguma forma, precisam ser mantidos.

“Não podemos voltar para aquelas reuniões de país burocráticas e só no formato presencial. Podemos realizá-las também por meio dessas plataformas ou mesmo reuniões híbridas, nas quais alguns(algumas) comparecem presencialmente e os(as) demais participam remotamente. Todas essas configurações que já eram possíveis antes, mas culturalmente não estavam dentro do nosso cotidiano, agora podemos colocá-las em prática”, afirmou o professor.

Também cabe às escolas estimular os(as) docentes para que arrisquem e empreendam mais e trabalhem mais ativamente com os(as) estudantes, usando todos os recursos que foram testados no remoto – como gamificação, jogos, sala de aula invertida e avaliação diagnóstica rápida para dar feedback. “Podemos fazer um mix entre o trabalho individual e o em grupo, o analógico e o digital, os momentos assíncronos e os síncronos, presenciais ou em plataformas online”, sugeriu. 

A escola tem que ser mais ágil e usar todo o potencial que nós conhecemos e vimos que é possível. Precisamos utilizar toda a criatividade para fazer do encontro presencial algo muito vivo, não simplesmente exposição e transmissão de conteúdos, mas momentos com mais práticas, desafios e projetos.”

Sem encantamento não há aprendizagem profunda

O encantamento vai ser um fator fundamental para engajar os(as) alunos(as) na volta presencial. Se, no online, os(as) professores(as) precisaram se reinventar para motivar os(as) estudantes, agora, no retorno presencial, as aulas precisam continuar sendo estimulantes e um lugar de descoberta, pesquisa e aprofundamento. Isso depende não só da ousadia dos(as) docentes, mas também do apoio dos(as) gestores(as)

Leia também: Como apoiar a aprendizagem do adulto professor após a pandemia

Para propor aulas mais significativas e interessantes aos(às) alunos(as), no entanto, é preciso ouvi-los(as). Assim como os(as) professores sempre perguntavam aos(às) estudantes, no ambiente online, como estavam e quais eram suas preocupações, essa escuta também deve acontecer no pós-pandemia. “Os(as) professores(as) devem saber como eles(as) estão, quais são as questões que têm, seus interesses e expectativas”, destacou Moran.

Além da escuta dos(as) estudantes, também é importante haver trocas entre os(as) docentes, para compartilharem práticas e experiências, aprenderem uns(umas) com os(as) outros(as) e desenvolverem planejamentos e projetos em conjunto, usando até mesmo as plataformas assíncronas. 

A questão da ocupação dos espaços escolares e da estética dos ambientes também deve ganhar importância nessa remodelação, de acordo com Moran. “Professores(as) e alunos(as) têm usado outros ambientes da escola, além da sala de aula, para a realização de aulas e atividades presenciais, ocupando a escola de uma forma mais rica. Ainda que motivados pelas questões de saúde e distanciamento social, estamos descobrindo a importância de estar em contato com a natureza e aprender em espaços atraentes, bem arejados e inspiradores.”

Novas formas de avaliação

Se as formas de ensinar e aprender tendem a se modificar, como devem ser as avaliações nesse contexto? Moran apontou que elas podem se tornar muito mais ricas e ágeis, a partir de tudo o que foi experimentado no online. “Os(as) professores(as) podem propor atividades de verificação, usando recursos como quizzes, checagens, perguntas e formulários, para obter um rápido diagnóstico do que está funcionando ou não ou do que deve ser aprofundado”. Outra alternativa proposta pelo professor foi o Geekie One, a plataforma de educação baseada em dados da Geekie que traz mais visibilidade da aprendizagem e permite a personalização a partir de evidências concretas.

Além disso, outras formas de avaliação, como usar a gamificação, pedir para que os alunos se avaliem e criar rubricas para ver o grau de domínio de determinados conteúdos também se mostram válidas.

Para Moran, a escola tem que ser inspiradora e encantadora, e todas essas possibilidades vistas no remoto, misturadas com o presencial e com as ideias de compartilhamento e de personalização, podem ajudar nesse novo modelo. “Dá para fazer uma proposta fantástica dentro da dinâmica do experimentar do aprender, e desenvolver algo muito diferente para engajar esses estudantes”.

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