“Resiliência e antifragilidade são fundamentais para lidar com o momento atual”

Em entrevista ao InfoGeekie, Sabrina Pereira da Silva, analista de projetos educacionais do SESI Minas Gerais, fala sobre inteligência emocional e habilidades socioemocionais e dá dicas de como as escolas podem auxiliar docentes, estudantes e famílias no aspecto emocional. Confira:

Inteligência emocional e habilidades sociemocionais são palavras que ganharam força nos últimos anos e, em especial, nos últimos meses com o isolamento provocado pela pandemia do coronavírus. Desde o começo deste cenário que continua em 2021, as incertezas quanto ao tempo de duração do afastamento, as adaptações com as aulas remotas, novas rotinas e formas de trabalhar — isso sem contar as perdas de entes queridos e/ou de postos de trabalho em diversos setores — gerou impactos consideráveis na saúde mental de muitas pessoas.

Frente a este cenário, as escolas precisaram dar mais atenção às questões emocionais não apenas de estudantes, mas também de docentes, colaboradores(as) e famílias. Para contribuir com o debate sobre o assunto, conversamos com a analista de projetos educacionais do SESI Minas Gerais, Sabrina Pereira da Silva. Além de explicar o que é a inteligência emocional, ela também dá conselhos e exemplos de como as escolas podem se organizar para apoiar toda a comunidade para enfrentar o cenário. Confira:

InfoGeekie: Para começar nossa conversa, você pode explicar o que é Inteligência Emocional e sua importância para lidar com momentos como este que estamos vivendo?

Sabrina: Inteligência emocional não é sorrir ou dizer que está tudo bem o tempo todo, muito menos nos deixar na zona de conforto. Daniel Goleman, um estudioso da área, define que a pessoa que tem Inteligência Emocional é aquela que consegue criar motivações para si própria. Ela persiste em um objetivo apesar dos percalços, de adversidades de momento ruins, ela consegue criar motivação, controlar seus impulsos e ver algo bom em toda ação.

Eu gosto muito de frisar que muitas vezes nós adultos(as) e jovens também focamos muito nos nossos fracassos, focamos no que nós não sabemos e colocamos uma energia muito grande nisso, sendo que se nós focarmos nos pontos fortes e potencializarmos isso, melhores pessoas nós seremos. Cabe a nós adultos ter esse olhar para nós e para os(as) estudantes também. “O que você é bom ou boa?; O que você sabe fazer muito bem feito?” Potencializar o lado bom tem resultados significativos.

InfoGeekie: E como mudar essa mentalidade negativa que a pandemia trouxe para muitos(as) estudantes, docentes e famílias?

Sabrina: Eu acho que não devemos ficar pensando “O que eu vou fazer?”, mas ao contrário. “O que eu posso fazer hoje para ajudar os(as) estudantes?”. Tem duas palavras que ganharam muita força agora na pandemia: resiliência e antifragilidade!  

Resiliência é a gente saber se transformar diante de uma situação de estresse, crise ou mudança. E é uma palavra muito falada. Mas uma outra questão que é discutida hoje, junto com a resiliência, é a da antifragilidade. Essa característica está ligada àquela pessoa que consegue crescer durante o problema; ela consegue ver as oportunidades; “o que eu posso fazer agora e não depois”. 

A resiliência vem depois e a gente precisa dela, mas a antifragilidade é importante. Quando eu estou passando por uma crise, quais lições eu posso aprender? Por isso, a importância de termos esse foco no agora. A ansiedade que a gente está passando está voltada às incertezas, ao futuro. A gente não sabe o que vai acontecer, o que o mundo vai pedir pra gente daqui em diante. 

É importante a gente desenvolver o autoconhecimento, a autogestão, a empatia. É importante também criar rotinas de estudo, de pausas, de exercícios físicos e, principalmente, da gente ter uma visão positiva — ver o quanto nós estamos crescendo diante disso tudo. 

InfoGeekie: Você pode nos dar exemplos de como é possível adotar essa postura de focar no hoje para auxiliar estudantes e o corpo docente?

Sabrina: Por exemplo, durante a época de preparação para o ENEM, existe a fala entre docentes: “Quando eles voltarem, a gente vai ter que fazer isso…”. Não! O que a gente pode fazer para os(as) estudantes hoje, agora?

Nós sabemos que nossos(as) estudantes do Ensino Médio estão passando por uma fase muito crítica. A angústia que vem da indecisão, da incerteza está sendo muito latente. Então, o que a gente pode fazer por eles hoje? 

Aqui em Minas Gerais, por exemplo, estamos com um programa chamado “ENEM Conectado”, que é um programa de acolhimento dos alunos e das alunas. Nós fizemos uma pesquisa para ouvi-los(as). Perguntamos: 

  • Neste momento de pandemia, o que vocês estão sentindo?
  • Como vocês estão estudando?
  • Como vocês vão desenvolver habilidades que vão contribuir para que tenham sucesso no futuro?

Diante dos dados desta pesquisa, nós traçamos um plano de ação para as escolas. 

Nós, gerentes de educação, também estamos agindo, realizando lives com psicólogos(as); trazendo professores e professoras para bater-papo com eles(as); ações nas quais os(as) próprios(as) alunos(as) da turma que dominam mais um determinado conhecimento fará uma live com os(as) demais, não somente na sua escola, mas também para outras escolas.

Fizemos também uma ação chamada “Net SESI”, que são filmes que podem ser trabalhados para fazer um paralelo com o que estamos vivendo hoje e com conteúdos que docentes e estudantes estão trabalhando na escola. São ações que contribuem não só para essa formação técnica e de preparação ao ENEM, mas ações que têm foco no hoje. 

As competências da BNCC_CTA2

InfoGeekie: Essa mentalidade é importante para tudo e para todos(as), não somente para a escola. É lógico que é importante projetar o futuro, mas especialmente em um momento de futuro tão complexo, é importante saber o que podemos fazer agora, por que, do contrário, a gente paralisa! 

Sabrina: As questões cognitivas são muito importantes, claro! Mas, num determinado momento, só ela prevalecia no ambiente escolar. Hoje, a gente sabe da importância deste equilíbrio e que o desenvolvimento das habilidades socioemocionais é tão importante quanto das habilidades cognitivas. Encontrar este equilíbrio é essencial. Eles interagem entre si e quando são desenvolvidas, melhoram muito o potencial das equipes, dos(as) estudantes, etc. E a gente consegue apoiar os alunos e as alunas a se tornarem seres humanos cada vez mais humanos!

InfoGeekie: A BNCC trouxe essa questão das habilidades socioemocionais para a pauta da escola ainda com mais força desde sua aprovação. Você pode comentar mais sobre a importância dela para o desenvolvimento de crianças e jovens?

Sabrina: Esse é um tema muito envolvente, que está hoje em alta, principalmente nesse momento que estamos vivendo de pandemia. Estamos vendo o quanto nós somos fortes e frágeis ao mesmo tempo. Isso tem mostrado que nós muitas vezes somos analfabetos emocionais. O desenvolvimento dessas habilidades emocionais é muito importante porque é isso que dá a base ao aluno e à aluna ou ao(à) profissional se autoconhecer. Como ele(a) pode lidar com as suas próprias emoções, com as angústias, com as frustrações; como ele(a) pode demonstrar empatia,  carisma; como isso contribui para manter e ter relações saudáveis.

InfoGeekie: Qual é a relação da inteligência emocional com as habilidades socioemocionais?

Sabrina: O desenvolvimento das habilidades socioemocionais está diretamente relacionado ao desenvolvimento da inteligência emocional. E o problema é que sempre deixamos o que estamos passando emocionalmente para depois, desde pequenininhos(as). Quanto mais a gente conhece as emoções e nos conhecemos, mais conseguiremos gerir isso e nomear

  1. Eu tenho um problema; 
  2. Hoje eu estou triste; 
  3. O que vou fazer para lidar com isso? 

É normal sentir medo, sentir raiva. O que não é normal, é cometer uma atitude muito séria porque estou com raiva. Aí entra a gestão e controle emocional. Temos que ter este olhar, ter sensibilidade ao(à) outro(a), mas só podemos dar o que já temos. Então, eu acredito que é uma questão de formação da equipe para este novo olhar. 

InfoGeekie: Como a escola pode trabalhar essa questão em sua rotina e qual é sua importância neste momento de fragilidade emocional provocado pela pandemia do coronavírus?

Sabrina: Hoje vivemos em um mundo, falando um pouco sobre a esfera da família, chamado VUCA [do inglês Volatile; Uncertain; Complex and Ambigous que significa Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo] no qual temos mudanças muito rápidas, muitas incertezas, muitas complexidades, muitas verdades ao mesmo tempo. Se para nós, muitas vezes é difícil digerir isso tudo, imagina para uma criança, para um(a) jovem que não tem a mesma experiência que nós temos. Então, o que cabe a nós enquanto escola: ajudar os(as) jovens e as crianças a entenderem o contexto que elas estão e como as emoções influenciam esse contexto. 

Começa por nós como educadores e educadoras por que é um efeito cascata, e depois desenvolvemos na equipe até chegar no aluno e na aluna e, assim, atingir a família, desenvolvendo momentos de pausa, de controle para conseguir lidar com tudo isso. Assim entra, então, o desenvolvimento de habilidades socioemocionais. 

Importante que nós, enquanto educadores(as) e enquanto escola, resgatemos alguns valores simples como, por exemplo, conversas, olho no olho, a importância do(a) outro(a), da empatia, da compaixão. Sabe aquela frase de “ajudar o ser humano a ser mais humano”? Eu acho que nesse momento o que mais precisamos é isso.

Por isso, a importância da escola, hoje, não é trabalhar somente o conhecimento, mas principalmente a aplicação desse conhecimento em atitudes dentro da escola e desenvolver outras habilidades como as relacionais — de troca e colaboração —, por que hoje o mundo precisa disso. Um dos grandes ensinamentos que todo esse momento que estamos passando no cenário emocional é isso, o quanto nós precisamos uns dos outros, o quanto os valores que estavam esquecidos precisam ser resgatados. Hoje, as pessoas sentem falta de conversar, sentindo falta do outro, estamos tão no piloto automático do dia a dia que acabamos esquecendo o quanto o outro é importante na nossa vida.

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