Planejamento reverso: foco nos resultados desejados para só depois definir as experiências de aprendizagem

Metodologia coloca o(a) estudante no centro do processo e valoriza a intencionalidade pedagógica, a construção de conhecimentos significativos e o ‘saber fazer’. 

A aprendizagem por habilidades e competências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) requer novos conhecimentos e estratégias diversas do modelo tradicional de ensino. Nesse contexto, o planejamento pedagógico pode ser feito de uma maneira diferente, a partir dos objetivos que se espera que os(as) estudantes alcancem ao longo do processo de aprendizagem.

Para falar sobre os desafios desse instrumento essencial no trabalho do(a) professor(a), o 5o Circuito Geekie, realizado em 6 de abril, promoveu a oficina online “Planejamento reverso e a aprendizagem por habilidades e competências”, com Vivyane Curalov, consultora pedagógica da Geekie. O encontro também contou o diretor Haroldo Queiroz e a coordenadora pedagógica Sandra Castro, do Colégio Santa Maria Minas – Coração Eucarístico, de Belo Horizonte (MG), além da participação de educadores por meio do chat do YouTube.

Como estamos planejando nossas aulas?

Vivyane propôs uma reflexão sobre como os(as) professores(as) estão planejando suas aulas, principalmente no cenário da retomada das atividades presenciais nas escolas, após o período de isolamento social em função da pandemia. “Mais do que nunca é o momento de articular o planejamento com a equipe e compartilhar desafios para pensarmos juntos na aprendizagem”, afirmou. Nessa perspectiva, ela apresentou uma frase do professor José Carlos Libâneo, que destaca a intencionalidade desse processo e o foco na aprendizagem:

“O processo de ensino é o conjunto de atividades organizadas pelo(a) professor(a), visando alcançar determinados resultados, no qual a sua condução requer uma ‘compreensão clara e segura do processo de aprendizagem.’”

A consultora pedagógica citou também uma importante referência teórica sobre o tema, a obra Planejamento para a compreensão: Alinhando currículo, avaliação e ensino por meio do planejamento reverso, de Grant Wiggins e Jay McTighe, publicado no Brasil pela editora Penso (2019). “O planejamento para compreensão coloca no centro do processo o(a) estudante e não o cumprimento do livro didático ou da apostila. E mostra a importância da intencionalidade, trazendo provocações como ‘Quais são nossos objetivos como educadores e educadoras?’, ‘Quais experiências queremos trazer para os(as) estudantes?’ e “O que esperamos que eles(as) compreendam a partir dessa atividade?’”

Ela explicou que, em consonância com essas ideias, está a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que trouxe uma maior clareza de onde se quer chegar, ou seja, dos objetivos de aprendizagens. Para ilustrar a ideia, ela reproduziu uma frase do autor Cipriano Carlos Luckesi:

“O ser humano age em função de construir resultados. Para tanto, pode agir aleatoriamente ou de modo planejado. Agir aleatoriamente significa “ir fazendo as coisas”, sem ter clareza de onde se quer chegar; agir de modo planejado significa estabelecer fins e construí-los através de uma ação intencional.”

Segundo ela, um ponto central da obra de Wiggins e McTighe é a diferenciação dos conceitos de saber e compreender. “É diferente criar um planejamento que vai ter como eixo central o conteúdo ou a compreensão. É a compreensão que traz significado para o(a) estudante e permite que ele(a) aplique o conhecimento em diversos contextos”.

“A aprendizagem que não penetra na essência do que é vital em relação às ideias produz aulas abstratas, alheias e desinteressantes”, disse Vivyane, citando mais uma frase de Wiggins e McTighe.

As 3 etapas do planejamento reverso

O plano de aula em 3 etapas é uma metodologia para estruturar as práticas de ensino e aprendizagem nas aulas e para criar evidências a fim de medir se os objetivos de aprendizagem foram alcançados. Ele consiste em:

  1. Identificar os resultados desejados
  2. Determinar as evidências aceitáveis
  3. Planejar experiências de aprendizagem
As três etapas do planejamento reverso: determinar objetivos de aprendizagem; depois as evidências que mostrarão se o aluno aprendeu; por fim, planejar quais são as experiências que serão feitas com os estudantes.

Como exemplo, para mostrar como poderia ser desenvolvida a metodologia do planejamento reverso, Vivyane partiu de uma habilidade da BNCC do 7º ano, da área de Ciências da Natureza: 

EF07CI09: Interpretar as condições de saúde da comunidade, cidade ou estado, com base na análise e comparação de indicadores de saúde (como taxa de mortalidade infantil, cobertura de saneamento básico e incidência de doenças de veiculação hídrica, atmosférica entre outras) e dos resultados de políticas públicas destinadas à saúde.

A primeira etapa consiste em traçar com bastante clareza os objetivos: o que queremos que os(as) estudantes alcancem a partir da aprendizagem? Alguns verbos auxiliam nessa definição, como identificar, relacionar, sintetizar, resumir e interpretar. No caso, esses objetivos poderiam ser: compreender os conceitos essenciais sobre nutrição, reconhecer os elementos de uma dieta balanceada e refletir sobre os próprios padrões alimentares. 

Em seguida, perguntas essenciais ajudam a pensar sobre a questão, como “Você se alimenta de forma saudável?” e “Como é possível que uma dieta saudável para uma pessoa possa ser insalubre para outra?”

Na segunda etapa, para determinar as evidências de aprendizagem aceitáveis, é fundamental que a avaliação seja feita ao longo do processo, de forma contínua. “A ideia é trabalhar com evidências que vão ajudar a entender o quanto os(as) estudantes estão sabendo, e não esperar o final do semestre para avaliá-los(as). É uma mudança de mindset, de cultura”, pontuou a consultora. Entre essas evidências estão pesquisas, vídeos, projetos, desenhos e esquemas feitos pelos(as) alunos(as).

Vivyane destacou que uma ferramenta interessante nesse sentido é a rubrica de avaliação, que ajuda os(as) alunos(as) a entenderem o que se espera deles(as). Ela pode ser preenchida tanto pelos(as) estudantes quanto pelo(a) professor(a) para coletar as evidências de aprendizagem.

Na terceira e última etapa, a partir dessas evidências observadas, ocorre o planejamento das experiências de ensino e aprendizagem – no caso, por exemplo, apresentar os conceitos sobre os grupos alimentares, revisar as recomendações sobre alimentação do Ministérios da Saúde, aprender sobre as necessidades humanas diárias de cada tipo de alimento, realizar entrevista com uma nutricionista e usar um capítulo do livro didático. 

Como é importante que essas experiências sejam significativas para os(as) estudantes, podem ser usadas metodologias ativas, como rotação por estações, trabalhos em grupo e a sala de aula invertida.

“Começamos então refletindo sobre os objetivos, depois pensamos nas evidências e, por fim, chegamos nas práticas pedagógicas – quais sequências de aprendizagem vou usar, ou seja, como vou apoiar os(as) estudantes para se engajarem, se desenvolverem e demonstrarem as grandes compressões”, sintetizou Vivyane. 

Como planejamentos: ciclo de definições dos objetivos de aprendizagem pautados no conteúdo e operações cognitivas, para gerar evidências e embasar as práticas pedagógicas mais ativas e significativas.

De acordo com ela, os(as) professores(as) devem se questionar sobre o que os(as) estudantes saberão fazer a partir desse conhecimento. “Deve ser um aprendizado não só para fazer a prova ou passar no vestibular, mas um saber fazer, um saber para a vida. Esta é a grande provocação: estou planejando para ele(a) saber ou para compreender, viver e atuar neste mundo?”

Planejamento, flexibilidade e novas maneiras de educar e aprender na experiência de uma escola

O Colégio Santa Maria Minas – Coração Eucarístico, em Belo Horizonte (MG), escola parceira da Geekie, tem inovado nas suas práticas e processos pedagógicos. “Sempre nos incomodou, mas por muito tempo usamos os índices dos livros didáticos que adotávamos como matriz de planejamento”, disse Sandra Castro, coordenadora pedagógica do 9º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio. “Saber aonde se quer chegar com o(a) aluno(a), traçar o caminho que será percorrido e ter a liberdade de poder organizar o currículo de acordo com aquilo que acreditamos e planejamos tem nos encantado.”

Segundo ela, esse tipo de planejamento também dá a liberdade de fazer coisas diferentes no meio do caminho – por exemplo, incluir atualidades, como a pandemia da Covid-19 ou a guerra na Ucrânia. 

Haroldo Queiroz, diretor do Colégio Santa Maria Minas, reforçou a importância de haver flexibilidade no planejamento, mas também do professor, para enriquecer as aprendizagens. “Planejamento não são ‘trilhos, mas ‘trilhas’ que podemos mudar durante o percurso se temos clareza dos nossos objetivos”, acrescentou a educadora Juliana Rita Magalhães​, por meio do chat da oficina no YouTube.

Na relação com as famílias, o diretor salientou ser comum que elas cobrem a escola a partir das experiências de ensino que tiveram e, por isso, é fundamental trazê-las para perto da escola e levar a elas, com transparência e sinceridade, qual é o objetivo dessas novas maneiras de educar, em que o aprender é mais importante que o ensinar. “A comunidade estudou em outra perspectiva [de um ensino mais tradicional], mas precisa entender [as mudanças] para nos ajudar a construir essa nova educação.”

“Precisamos considerar também que os familiares não têm nenhuma obrigação de entender toda essa mudança que está acontecendo na educação, então cabe à escola trazer essas informações e o que pretende. Tivemos resistência na escola, e uma das formas que encontramos para começar a vencer isso foi uma reunião com os pais, quando introduzimos a Geekie, chamada “Ventos da mudança”, já pensando também no Novo Ensino Médio”, explicou Sandra. “Precisamos cuidar da formação das famílias nesse sentido. Quando elas compreendem, elas se entusiasmam.”

Somos todos(as) aprendentes

Além das famílias, cabe à gestão da escola trabalhar essa mudança de paradigma também com os(as) professores(as). A educadora Nivia Carvalho, que também interagiu com os palestrantes por meio do chat, contou que fez uma formação recentemente com docentes que, assim como ela, tiveram uma educação tradicional. Na hora de realizar uma dinâmica mais ‘mão na massa”, ela percebeu uma certa dificuldade: “Somos resultado de uma geração que estudava pela memorização, somente para fazer provas. Hoje, novas formas de aprender e ensinar exigem autonomia, participação, colaboração, enfim, habilidades que não tivemos oportunidade de desenvolver. Mas estamos aqui aprendendo, somos aprendentes”, comentou.

Para Haroldo, cabe à gestão incentivar também a autonomia e o protagonismo dos(as) professores(as) – que, muitas vezes, também pautam o seu processo de ensino e aprendizagem na forma como o tiveram na escola e na universidade. “Os(as) gestores(as) devem dar segurança para que os(as) docentes possam experimentar e fazer diferente. Se não, continuaremos reproduzindo a escola do século XIX e de antes da pandemia que precisamos transformar”, declarou.

“Precisamos trocar o pneu com o carro andando. Criar espaços temporais e de segurança emocional para que os(as) educadores(as) possam realizar essas ‘aventuras pedagógicas’ e experimentar o novo, se dar permissão para aprender fazendo. Muitos adultos e educadores(as) – e o próprio modelo escolar – têm problemas com o erro”, afirmou o diretor. 

“É preciso liberdade para os(as) professores(as) aprenderem. Já que temos que ensinar para os(as) alunos(as) aprenderem com o erro, os(as) professores(as) precisam ser livres para experimentar e errar também”, completou Nivia Carvalho, por meio do chat.  “É uma uma situação complexa. Como as famílias entenderiam o erro de um(a) professor(a)? É uma mudança de mindset do ecossistema escolar como um todo”, ponderou Haroldo. 

Vivyane ressaltou que o planejamento também parte dos grandes objetivos da comunidade escolar. “Ter isso alinhado e mostrar para as famílias que somos uma comunidade de aprendentes é muito importante. Isso poderia ser incluído no projeto político-pedagógico da escola, por exemplo?”, provocou a coordenadora.

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