As tecnologias digitais como recursos para personalização no Ensino Híbrido

Refletir sobre o potencial pedagógico das tecnologias digitais na educação tem sido uma ação recorrente em muitas instituições de ensino. Mais do que o uso para enriquecer as aulas, é importante ampliar o debate e refletir sobre como a personalização das ações de ensino e aprendizagem pode ser inserida nesse processo.

Nesse contexto, os professores Ailton e Sunaga, educadores referência em Ensino Híbrido, compartilham alguns recursos que têm utilizado em suas aulas visando potencializar o aprendizado de seus alunos. Segundo os educadores, o primeiro passo para a personalização é planejar o roteiro a ser seguido. Como mentor, o professor deve ter claros os objetivos a serem atingidos por seus alunos, só assim será possível traçar os caminhos necessários para alcançá-los.

Uma ferramenta interessante que pode ser utilizada para elaborar este roteiro é o Coggle.it. Sua finalidade inicial é a construção de mapas mentais; porém, seu uso para a construção de Mapas do Conhecimento é bem prático. Uma dica, diz Ailton, é o professor começar elencando os objetivos mais simples que podem ser facilmente diagnosticados e avaliados; depois, pode-se avançar interligando outros caminhos durante o trabalho com aquele conteúdo.

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Esse recurso é importante para que o professor tenha uma visão clara dos conteúdos e objetivos que serão construídos durante um período e, dessa forma, consiga desenhar experiências de aprendizagem que contemplem esses conteúdos e objetivos. Veja abaixo um exemplo de matemática:

Mapa mental sobre "Introdução às frações" elaborado pelos professores autores deste artigo.

Digamos que um professor deseje iniciar o estudo de frações com seus alunos, comenta Sunaga. Sua estratégia é a introdução desse assunto compreendendo quatro pontos principais: noções básicas de frações, números decimais, frações equivalentes e mínimo múltiplo comum.

Personalização e engajamento com a Rotação por Estações de Aprendizagem

Segundo Sunaga, o próximo passo é a escolha do modelo apropriado para atingir os objetivos propostos. Um dos modelos mais populares do Ensino Híbrido é o modelo de Rotação por Estações de Aprendizagem (veja o infográfico aqui). Considerado a porta de entrada para a abordagem híbrida em sala de aula, gradativamente o professor pode avançar para outros modelos mais disruptivos, assim que demostrar segurança na metodologia rotacional.

Nesse modelo, explica o educador, são criadas estações com atividades diferenciadas que dão enfoque a diversos tópicos de um tema principal. A turma de alunos é dividida em grupos que rotacionam entre as estações a intervalos regulares, seguindo os roteiros propostos em cada uma. A grande vantagem desse modelo é o engajamento, o compartilhamento de informações e a diversidade de estilos e experiências aprendizagem que são contemplados nele. Como cada estação é planejada para promover a autonomia, o professor consegue focar sua ação e dedicar-se aos alunos com maiores dificuldades, por exemplo.

Para facilitar o oferecimento do conteúdo e a avaliação, Sunaga sugere que o professor utilize o aplicativo Socrative. Por meio desse recurso, também gratuito, é possível criar roteiros de aula e exercícios na forma de jogos que engajam os alunos. O professor acompanha em tempo real o desempenho de cada aluno e pode diagnosticar facilmente as habilidades e dificuldades de cada um. O Google oferece também em seu Drive, os Formulários Google, que também possibilitam a criação de roteiros de estudo com textos, vídeos e testes ajustados para autocorreção. O desempenho individual e da turma são apresentados através de gráficos ou planilhas.

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Caso o modelo escolhido seja a sala de aula invertida ou o laboratório rotacional, afirma Ailton, é possível explorar conteúdos em vídeos: como videoaulas, documentários ou animações. O aplicativo Playposit permite que o professor apresente perguntas, explicações, imagens e esquemas em diversos momentos do vídeo, aumentando assim o engajamento dos alunos e melhorando a percepção do professor sobre o sucesso em atingir os objetivos pedagógicos. Essa percepção é essencial para o professor, segundo os educadores, pois oferece parâmetros para o desenvolvimento das atividades posteriores que acontecem presencialmente na sala de aula.

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Rotação Individual e o papel da tecnologia na personalização

Um outro modelo bem interessante é o chamado Rotação Individual. Aqui, os alunos alternam, individualmente, diferentes modalidades de aprendizagem. A personalização começa em um momento anterior, quando é realizada uma prova diagnóstica para sondar os conhecimentos prévios da turma e localizar eventuais lacunas. Na próxima etapa, professor e aluno organizam, juntos, um roteiro personalizado que indica as ações necessárias para que o aluno domine os tópicos em que apresenta dificuldades ou avance naqueles que já domina. Ao terminar essas atividades, é feita uma nova avaliação para identificar os avanços. Trata-se de uma avaliação formativa, que funciona como um recurso para a aprendizagem, e não como mera verificação de domínio de um conteúdo.

Ailton e Sunaga são categóricos ao afirmar que somente com o advento da tecnologia tornou-se possível acompanhar o desempenho de alunos em tempo real e, assim, explorar mais a fundo a personalização da aprendizagem. Os diversos recursos podem ser disponibilizados quando necessários, avaliações e exercícios podem ser corrigidos automaticamente e as informações podem ser acessadas a qualquer momento.  Ao oferecer conteúdos e atividades diferenciadas no formato online, nas quais o aluno tem controle sobre o tempo, ritmo, modo e lugar, o professor pode personalizar a aprendizagem de seus alunos, expandir seu poder de ação e, acima de tudo, ganhar tempo e focar sua energia no que realmente importa.

Vale lembrar que a demanda de sala de aula, identificada e debatida pelo corpo docente em acordo com a comunidade escolar, é um pressuposto para qualquer solução pedagógica envolvendo a tecnologia e não o contrário. Dessa forma, concluem os educadores, prioriza-se a aprendizagem dos alunos tendo como ponto de partida as características da própria escola e dos profissionais da educação que nela lecionam.

* Lilian Bacich é Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (IP-USP), Mestre em Educação: Psicologia da Educação pela PUC/SP (2008), graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (1990) e em Pedagogia pela Universidade de São Paulo (2000), com especialização em orientação, administração e supervisão escolar. Atuação como professora e coordenadora, por 28 anos, com ênfase em Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino de Ciências e Biologia, Experiência na graduação e na pós-graduação em disciplinas relacionadas à Psicologia da Educação e a aplicação pedagógica das tecnologias digitais. Diretorta e cofundadora da Tríade Educacional e coordenadora do curso online e organizadora do livro “Ensino Híbrido: personalização e tecnologia na educação” (Editora Penso, 2015), tema de sua tese de doutorado. Contato: bacichlilian@gmail.com

A escrita dessa coluna foi feita em parceria com os professores:

Ailton Luiz Camargo é Mestre em História Social na USP, licenciado em História pela USP, é professor do Colégio Objetivo Sorocaba e da rede municipal de Iperó. Premiado “Professor Nota 10” em 2012 pela Fundação Victor Civita. Educador-Referência e Integrante do Grupo de Experimentação em Ensino Híbrido. Contato: ailguitar@ig.com.br

Alexsandro Sunaga é mestrando em ensino de Astronomia na USP, licenciado em Física pela UNICAMP, MBA em Finanças pela ESAMC, é professor de física, matemática e robótica. Consultor em Tecnologias na Educação no Colégio Objetivo. Educador-Referência e Integrante do Grupo de Experimentação em Ensino Híbrido. Contato: alexsandro.sunaga@gmail.com

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